O Supremo Tribunal Federal deve votar nesta semana uma Ação Direta de Inconstitucionalidade que contesta resolução da Anvisa proibindo a comercialização de cigarros com aroma e sabor. Esta decisão terá não somente o poder de influenciar toda a indústria de cigarros, mas poderá ainda representar, dependendo do voto dos ministros do STF, uma piora significativa nos índices de contrabando do produto no pais. O Brasil é hoje o campeão mundial no contrabando de cigarros, com 48% de todo o mercado dominado por marcas contrabandeadas do Paraguai.
Estudo recente feito pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), mostra como as restrições impostas pelos governos a determinados setores são um enorme estímulo ao avanço do mercado ilegal no Brasil, principalmente o contrabando vindo do Paraguai.
Já em 2016, esse número caiu para cerca de 3 milhões de unidades. No mesmo período, a produção nacional de computadores saltou de menos de 3 milhões de unidades para cerca de 13 milhões de unidades.
Esse movimento é reflexo em grande parte das reduções nas alíquotas promovidas pelo governo para o setor, e que resultaram na equiparação de preços entre produtos brasileiros e os produtos que entravam de forma ilegal no país. No caso do cigarro, os seguidos aumentos de impostos fizeram com que o mercado ilegal saltasse de 20% em 2011 para os já citados 48% em 2017.
É preciso que os governos adotem medidas que tragam prejuízos financeiros para os contrabandistas, inviabilizando a prática criminosa. E o que a ADI 4.874 tem a ver com isso?
A proibição na venda de cigarros com sabor no país irá representar um aumento no já enorme mercado dominado pelos criminosos. Os consumidores brasileiros, ao se verem impedidos de comprar o produto de sua preferência, vão migrar para os únicos similares que estarão disponíveis no mercado: os cigarros contrabandeados do Paraguai.
Com essa medida a Anvisa peca duas vezes: assume um papel que é do Congresso Nacional, ao proibir o uso de ingredientes que não representam aumento no risco à saúde dos consumidores, mas pior do que isso, se exime de sua função primordial, a de fiscal da qualidade de produtos destinados ao consumo humano, já que a agência parece desconhecer que hoje metade do mercado de cigarros não obedece nenhuma das normas impostas aos fabricantes nacionais. É preciso perguntar: quais os motivos que levam as autoridades a ignorar parcela tão substancial de um mercado altamente regulado como este?
As agências reguladoras têm um papel importantíssimo na sociedade brasileira. São elas que dão segurança aos consumidores e às empresas sobre diversas áreas sensíveis e que afetam a economia, a segurança e o bem-estar de todos nós. Mas elas têm de agir com responsabilidade e não ultrapassar os limites impostos para sua atuação.
Luciano Barros é presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras.
Fonte: Conjur
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