terça-feira, 16 de setembro de 2014

16/09 A nova cara do empreendedor

Mateus Modesto abriu a primeira empresa aos 17 anos. Na época, ele trabalhava no escritório administrativo de um posto de gasolina e, ao descobrir que a loja de conveniência seria fechada, resolveu tomar a frente do negócio. Hoje Mateus é publicitário, tem 28 anos, deixou para trás as lojas de conveniência para criar a própria franquia, tem três unidades no DF e pretende inaugurar outras duas até o fim do ano. “Percebi que havia um deficit no mercado do fast food. O consumidor que tem necessidade de comer fora de casa não encontra opções que pode consumir todos os dias sem comprometer a saúde”, explica. Foi assim que ele criou as marcas Tasko e Tomatzo — a primeira oferece sanduíches e saladas frescas, e a outra é especializada em culinária italiana — e passou a empregar 28 funcionários. “Todos são empresários na minha família. Talvez isso tenha me motivado a ser empreendedor. Para me manter atualizado, busco cursos de empreendedorismo e fiz uma pós em finanças”, conta.

Mateus é um dos 36 mil jovens donos do próprio negócio no país, e as características desses empreendedores podem ser mais conhecidas por meio do Perfil do Jovem Empreendedor Brasileiro, relatório divulgado este mês pela Confederação Nacional dos Jovens Empresários (Conaje). A pesquisa foi realizada em junho junto a 5.181 pessoas de 18 a 39 anos nas 27 unidades federativas. O perfil apontado pela pesquisa indica que, assim como Mateus, a maioria dos jovens que empreendem no Brasil é do sexo masculino, tem de 26 a 30 anos e possui curso superior completo. Eles preferem abrir empresas no segmento de serviços, empregam até nove funcionários e faturam até R$ 60 mil por ano (veja quadro).

Conhecimento prático

De acordo com a pesquisa, 44% dos jovens empreendedores contam com ensino superior completo e outros 40% são pós-graduados. Segundo Ananda Carvalho, coordenadora geral do estudo da Conaje, mesmo com diplomas acumulados, esses empreendedores continuam com dificuldades na gestão. “Quando o jovem decide empreender, busca consultoria para gerir o próprio negócio, já que tem uma série de dúvidas práticas,” afirma. Ela acredita que a metodologia de ensino no país não forma o profissional para essa finalidade. “Não existe nada na educação formal no Brasil que incentive o empreendedorismo como geração de renda. Nem a academia, nem a educação de base formam o jovem para ser empreendedor.”

Vivian Modenese, 28 anos, abriu o primeiro negócio no início deste ano: uma clínica odontológica. Ela concorda que a educação com viés empreendedor seria uma vantagem para quem quer começar. “Hoje, além de todos os desafios de empreender, ainda tenho que correr atrás da minha formação,” reconhece. “Eu já tinha alugado a clínica, mas, na faculdade, a gente só aprende a ser técnico, não tem a visão empreendedora. Fiz um curso de gestão de cinco dias. Isso abriu a minha mente e decidi me dedicar apenas à gestão da clínica”, justifica. Atualmente, Vivian está terminando um MBA em gestão de clínica odontológica e coordena uma equipe de oito dentistas.

Capital inicial 

Entre os entrevistados que ainda não empreendem, 35% dizem que a principal razão é a falta de dinheiro. Na hora de abrir a empresa, 47% contaram com recursos da família e apenas 25% obtiveram financiamento junto a um banco. Márcio Diaz Abreu, professor no MBA de gestão empresarial da Fundação Getulio Vargas, afirma que a burocracia e a dificuldade de acesso ao crédito são “a face perversa que atrapalha o brasileiro que tem espírito empreendedor”. Ele relaciona a problemática à preferência dos jovens pelo segmento de serviços no momento de abrir um negócio. “São áreas mais fáceis de as pessoas entrarem, principalmente quando jovens, porque você precisa de um investimento menor de capital”, analisa.

De acordo com a pesquisa da Conaje, 48% dos jovens empreendedores estão inseridos no segmento de serviços, e apenas 3% optaram pelo agronegócio. Pequenas e microempresas, que empregam no máximo nove funcionários são a grande maioria, em contraste com 1% referente a grandes empresas. “Normalmente, as grandes empresas são mais famosas, mas o que movimenta mesmo a economia são companhias com meia dúzia de funcionários”, afirma o professor Abreu. A gerente de capacitação empresarial do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-DF), Olívia Castro, relembra que as micro e pequenas empresas correspondem a 99% dos empreendimentos no país, são as responsáveis por 27% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e empregam 52% dos trabalhadores brasileiros com carteira assinada. “Mesmo no período da crise econômica internacional, essas companhias continuaram crescendo e empregando, contribuindo para manter a economia aquecida”, afirma. 

Empresários juniores

Segundo a pesquisa, entre os potenciais jovens empreendedores, 28% fazem parte de empresas juniores. É o caso de Henrique Tagliari, 21 anos, atual presidente da AD&M, empresa júnior de consultoria em administração da Universidade de Brasília (UnB). Ele acredita que a participação no movimento empresa júnior é o que mais o incentiva a empreender futuramente. “A experiência de liderança e inserção no mercado de trabalho acaba despertando um jeito diferente de encarar as coisas com mais autonomia.”

Daniela Georg, 20 anos, é estudante de publicidade na UnB e umas das coordenadoras do projeto Marco Zero, que tem por objetivo desenvolver o potencial empreendedor de estudantes. “Queremos dar ferramentas e criar uma rede de pessoas que têm essa vontade para que possam empreender juntas”, explica. Daniela acredita que a participação no projeto é um diferencial. “Comecei a ler muito material sobre empreendedorismo, a participar de palestras e a conhecer pessoas. Consegui ver como essas redes funcionam na prática, o que faz diferença para qundo eu for abrir o meu negócio”, finaliza.
Palavra de especialista
Empreendedoras mais maduras 

Constatar que apenas 28% dos jovens empreendedores são mulheres não me surpreende. O perfil da mulher empreendedora é outro. Quando ela decide empreender, está em outro momento da carreira e da vida, em uma fase mais madura. Isso faz com que a escolha pelo empreendedorismo seja mais consciente. Por isso, eu não vejo esse dado de uma maneira negativa, até porque acredito sinceramente que o empreendedorismo seja um comportamento que a pessoa assume ao longo da vida profissional.”

Carolina Rezende, fundadora da Mulher de Negócio, escola de empreendedorismo feminino

                                           

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